Abaixo, colocaremos o corpus do trabalho. Como o blog está em manutenção, alguns posts ainda estão fora do ar, de forma que tivemos que transcrever literalmente aqui.
Contexto: O jornalista Reinaldo Azevedo discute nesse post a entrevista coletiva dada pela ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), onde esta afirma estar com câncer. A partir desse mote, o jornalista discute a questão da doença e de seus usos políticos e midiáticos, tal como ele denuncia. Pode-se perceber, nesse texto, confluências entre esse discurso que se propões público, e sua história pessoal, haja vista que ele já operou de um tumor cerebral. Abaixo, transcreveremos 2 posts, onde ele aborda essa questão, e que delimitará nosso corpus de análise:
A atitude digna de Dilma
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) confirmou neste sábado, em entrevista coletiva, que faz tratamento contra um linfoma — um câncer nos gânglios linfáticos. Ainda que a notícia, de certo modo, já circulasse, foi bastante digna a sua postura de assumir, serenamente, o problema.
Por que tantos, além de seus amigos e das pessoas que a amam, se interessam por sua saúde? Porque é a principal ministra do governo e porque é a preferida de Lula para disputar a sua sucessão pelo PT. Esse dado vai entrar na equação política? É claro que sim. Sempre entra. No Brasil e em qualquer país do mundo.
Não tenho, como sabem, simpatia pela trajetória política de Dilma Rousseff e, com freqüência, critico sua postura no governo — ou as imposturas do inexistente PAC, que classifiquei, desde o primeiro dia, por aquilo que é: pactóide.
Mas doença não é categoria de pensamento. Doença não serve para distinguir pessoas, nem para o mal nem para o bem. No meu mundo, homens e mulheres são mesmo imperfeitos, têm problemas — inclusive os de saúde. Mas não se conformam com eles. Os males que temos, no corpo e na alma, têm de ser combatidos.
Espero, sinceramente, que a ministra vença a sua doença. E aproveito para dar a diretriz do blog neste caso. Será considerado um inimigo desta página aquele que ousar fazer o que faz a escória que combato: usar essa questão para atingir politicamente a pré-candidata do PT. A Dilma que combato é a que lidera a farsa política do PAC. A Dilma que luta, como todos nós, contra os seus males merece o meu aplauso.
Essa questão não será politizada neste blog, E, caso haja exploração política do caso, tenha ela que natureza for, farei a devida denúncia. O câncer não faz ninguém nem melhor nem pior. O câncer é só um mal. E tem de ser combatido. Que ela tenha sucesso na empreitada.
Por Reinaldo Azevedo | 14:37 | comentários (306)
A POLÍTICA DO SOFRIMENTO
Muitos comentaristas dizem discordar da minha abordagem sobre o caráter eventualmente didático do sofrimento. “Devemos aprender especialmente com a dor, Reinaldo”. Alguns enviam histórias pessoais relatando como se fortaleceram nas crises etc. Vamos lá.
Em princípio, qualquer experiência pode nos ensinar alguma coisa: o câncer ou a leitura de um poema de Fernando Pessoa. Não acredito é no caráter especialmente iluminista da dor, sejam as físicas, sejam as morais. Gosto da ciência e do Deus da analgesia; do remédio que alivia, do Deus que consola. Vejo algo de cruel na pregação, como chamarei?, “exultória” do sofrimento, como se precisássemos dele para nos tornar pessoas melhores. E eu acho que não precisamos. O que não quer dizer que não se deva enfrentar o que há. Ora, que remédio?
Empresas costumam chamar esportistas para conferir palestras – e longe de mim querer tirar o ganha-pão de um monte de gente. O sujeito é o maior cestinha do basquete de todos os tempos? Bem, deve ter algo a ensinar a uma empresa que produz automóveis, não? Por absorção metafórica (!), ele falará sobre a importância da persistência, obstinação, treino permanente, garra, vontade de vencer, conhecimento do adversário, espírito individual de luta, harmonia da equipe... Ao fim da conversa, curiosamente, ninguém está pronto para fazer uma cesta, mas todos acreditam que podem fazer carros melhores...
Com o tal sofrimento, ocorre algo bem parecido. “Diga aí, campeão, como você enfrentou aquele período difícil porque pode ser um bom exemplo”. Pode? Cansei de receber agressões como esta: “É incrível como você não aprendeu nada, né, cabeça furada!?” (esses são os delicados...). Pois é. Com efeito, ter a “cabeça furada” não me fez um homem melhor. Sou apenas um homem da “cabeça furada”. Qual é a moral dessa história? Nenhuma! Sei lá se eu seria o mesmo com o crânio intacto. Poderia ser pior? Poderia. Mas quem me garante que eu não poderia ser melhor? O que sustento é que o sofrimento não tem conteúdo moral.
Vejo agora o caso de Dilma Rousseff. O colunismo áulico já exalta a sua coragem, a sua determinação, o seu esforço... Há algo fora do lugar, de deslocado, nessa abordagem. Pretende-se fazer com a mulher que vai vencer o câncer o mesmo que as empresas fazem com o cestinha de basquete ou o navegador solitário: usá-la como metáfora. “Se venceu a doença, pode vencer as dificuldades do país. E eis o caráter iluminista do sofrimento”. Observem que o Planalto, Lula e o PT nunca foram tão explícitos em admitir que sim, será ela a candidata do partido à Presidência. E só se faz isso diante da admissão da doença, quando, então, o rigor combativo dos adversários necessariamente recua para uma posição cuidadosa, quase defensiva.
No que respeita ao indivíduo, um simples passeio até a esquina pode ser esclarecedor, pode levar a um rasgo de iluminação. Imaginem, então, o sofrimento... A minha abordagem é outra. Estou chamando a atenção para o fato de que está em curso uma construção que torna Dilma “merecedora” da Presidência porque uma batalhadora. Bem pensado, foi o que se fez com o Lula de 2002 e com o Lula no tempo do mensalão: “Ele merece ser presidente, porque veio de baixo (e ela porque enfrentou a doença), e qualquer notícia ou análise que não faça tal afirmação corresponde a tentar tirar do homem (e dela) o que lhe cabe ‘por direito’”. Ademais, notem que a oposição, nesse particular, nada pode fazer sem que passe por cruel. A doença se transformou num ativo político do oficialismo,
O governo pode acionar o "botão quente" da mulher que venceu o dragão. E as oposições não podem dizer o óbvio: o câncer não foi feito nem para melhorar nem para humilhar ninguém.
Por Reinaldo Azevedo | 17:13 | comentários (53)
quarta-feira, 27 de maio de 2009
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O nosso encontro será mesmo amanhã no pátio da cantina? Às 9h?
ResponderExcluirMarli
Muito bom este nosso corpus de análise! Provavelmente despertará reflexões e polêmicas...
ResponderExcluirComo já havia comentado acho interessante postar aki a frase que li no jornal Folha de São Paulo a respeito do uso político do caso de Dilma Rousseff:
"É burrice explorar politicamente esta situação, mas burrice seria não fazê-lo".
Intrigante, não ???