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“Pensar é dobrar, é duplicar o Fora com um dentro que lhe é coextensivo”. (Deleuze, G.)
Titulo: Blog e Subjetivação: o sujeito do discurso na rede.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como intuito discutir a problemática da subjetivação na rede eletrônica, mais especificamente a subjetivação do sujeito do discurso na rede através da interface dos Blogs, entendidos como um canal de expressão de discursos que trazem à tona a tênue linha que separa a relação entre o privado e o público, ou, entre o particular e o coletivo.
Dentro do referencial da Análise do Discurso contaremos com a contribuição de outros autores como Pierre Lévy e Gilles Deleuze para nos apoiarmos em algumas discussões. Objetivamos colocar em debate a questão da escrita do Blog como forma de subjetivação, como uma linha dentro do processo de produção da subjetividade capitalística. Dentro dessa subjetivação olharemos para o acontecimento discursivo atualizado nos dispositivos de Blog
Podemos nos referir como ponto de partida, à noção de sujeito e discurso dentro da AD. O sujeito, na pós-modernidade perdeu sua soberania, seu status ontológico para tornar-se vários, assumir diferentes posições, diferentes papéis. Assim, dentro da teoria proposta por Michel Pêcheux, não há um sujeito falante, mas sim, posições-sujeito, ou seja, diferentes posições que o sujeito do discurso ‘assume’ de e por onde ele fala. O sujeito em-si deu lugar ao que Pêcheux chamou de “posição-discursiva”, em outras palavras, o lugar (de poder e saber) de onde o sujeito articula a linguagem dentro de uma formação discursiva que por si é permeada pela ideologia.
Segundo Foucault, o campo do saber é composto basicamente por luz e linguagem, por visibilidades e enunciações, ver e falar. Na concepção de Foucault que de certa forma será abastecida por Deleuze, é de posicionar do pensamento entre visibilidades e enunciações, entre o ver e o falar, que não quer dizer somente o que se vê e o que se fala, mas sim todo um campo de percepções e enunciações. O pensamento como um entre-meio, no jogo de forças entre o Saber, o Poder e o Fora (“caos”).
Assim, pensar é produzir, no entre-meio das 3 instâncias (saber, poder e Fora), novos entre-laçamentos entre o visível e o enunciável no campo do Saber. (Pélbart, 1998). No entanto, o quê se fala, como se fala, o que cala e o que faz calar, tudo isso está imerso nas condições, nos “jogos de verdade”, no contexto necessariamente histórico. Assim, o campo do Saber é sempre permeado por diagramas de poder, que são os mecanismos que fazem falar e os que fazem calar (e como calam!). Poder e Saber, “o poder como exercício, o saber como regulamento” (DELEUZE apud Chatelêt, 2006, pp.82). – (ou em Deleuze: Formas de Expressão e Formas de Conteúdo -MP2).
A Internet. Dispositivo criado pelo governo norte americano, com fins necessariamente bélicos. Com o projeto de desenvolver uma possibilidade de comunicação remota entre computadores que não seja passiva de rastreamento ou “grampo”, como no caso do telefone, por exemplo. Assim, nascia a Internet, uma rede para fins exclusivamente militares que dispunha de um aparato técnico que garantia na transferência de dados confidenciais. Este invento tomou corpo sendo disponibilizado em alguns centros acadêmicos que desenvolvendo novas tecnologias, foram aperfeiçoando o que vem se tornando um fenômeno global.
Para continuarmos a falar sobre nosso objeto de análise, necessitamos que fiquem às claras algumas noções fundamentais referentes ao conceito de Virtual. O virtual, pode ser compreendido como o que há em potência mas não em ato, o virtual assim se oporia mais ao atual do que ao real, pois, o real se efetua e o virtual se atualiza (Lévy, 2007).
De acordo com Lévy e este com Deleuze, o virtual implica uma desterritorialização, mas, na formula proposta por Deleuze está dito que toda desterritorialização implica uma re-territorialização. O virtual sendo compreendido como possibilidade em potência, como uma problematização.
O virtual se estende a quase todas as formas de compreensão. Basicamente, a palavra é uma virtualização de um sentido (pensado), o texto uma virtualização do pensamento (dizível, etc.). Porém, aí um problema está lançado. O virtual necessita necessariamente de um “plano” de atualização, no caso do computador, a interface do monitor torna possível a interação com um objeto que opera somente por uma lógica binária (0/1). “O virtual é uma fonte indefinida de atualizações” (LÈVY, 2007, pp.48).
Ao que tange nossa discussão, devemos nos ater ao virtual em seu curso referente à internet, a esta rede de dados, a este hipertexto imenso. O espaço de possível interação na rede leva o nome de ciberespaço (Lévy, 2007). O termo ciber refere à controle, espaço controlado, tendo em vista que a internet é uma deriva do movimento da cibernética (teoria da comunicação). Mas por incrível que pareça, essa rede por mais organizada que possa ser, torna-se ao mesmo tempo, um grande caos, um mar revolto espalhado em mil ondas em um sem-fundo de dados. Necessita-se sim, de barcos, bandeiras, manuais de navegação, atalhos, trilhas, mapas etc, tudo como suporte para a possibilidade de se entrar em contato com o Fora da rede, com a grandeza maior, o caos.
Mediante a tempestade, criamos nosso cosmos no interior em nosso guarda-chuva dirá D.H Lawrence, mas a arte, a poesia viriam a investir golpes de navalha nesse guarda-chuvas, fazendo passar um pouco de caos, traçando pontes com o Fora absoluto das forças selvagens, produzindo a Diferença.
O fenômeno dos Blogs (‘memória afectiva’) quanto um mecanismo (interface) virtual cria possibilidades de subjetivação necessariamente novas. Através do Blog é dada a condição de que sujeitos com pouco conhecimento em informática montarem pequenas ‘home-pages’. A condição para a utilização do blog, obviamente necessita de que quem deseja criar o seu, precisa ser identificado, reconhecido, “o barco precisa ter bandeira branca”, necessita-se de uma cifra, uma senha.
Passado pelo reconhecimento, o sujeito tem a “ilusão” de ser livre para escrever algo que outras pessoas na rede (o Outro – o Fora da Rede), verão. Pode-se escrever coisas dentro de certos limites impostos pelos desenvolvedores, ou seja, coisas são ditas, e coisas não podem ser ditas. O visível e o enunciável de mãos dadas com o invisível e o indizível. Luz e linguagem e sombra e silêncio.
O blog convida o navegante a escrever, a sentir-se autor de algo, nem que seja da própria vida. (Schittine, 2004). Assim, o movimento do Blog seria tornar público um pequeno fragmento da vida ‘privada’, da realidade subjetiva, como um ‘diário íntimo’? Ao mesmo tempo, seria tornar privado uma criação coletiva? Tornar pública uma criação de si mesmo? Falar verdades, falar mentiras? Ecoar vozes outras?
Vamos falar do blog como um mecanismo que possibilita uma atualização da vida do navegador, sem que necessariamente isso seja real do ponto de vista da efetuação, mas é real do ponto de vista do virtual. Falar de si, falar dos outros, falar pra alguém, falar pro Outro, pro desconhecido, pro Fora. É nesse ponto que me interessa a questão, onde justamente o Blog viria a ser um dispositivo de exercício do pensamento, um dispositivo de ‘abertura’ para novas singularidades, novos Acontecimentos.
Quando nos utilizamos do Blog para nos produzirmos, produzir novas possibilidades, produzir nossa subjetividade não devemos esquecer o quão controlado é o meio caótico da internet (ciberespaço), e o quanto está inserido no social que Deleuze chamou de “sociedade de controle”. Mais uma vez os jogos de poder, os jogos de verdade de Foucault ou seja, “Onde há liberdade há poder” (Foucault, 2006).
O blog seria uma espécie de memória virtual ‘livre’. Cria-se um pequeno arquivo pessoal/coletivo. Cria-se uma memória, coletiva-se pessoalidades, pessoaliza-se coletividades. Esse duplo movimento concerte ao movimento da virtualização, ou ao que Lévy chamou de “efeito Moebius” (Lévy, 2005). O Blog, poderia até mesmo ser compreendido como um espaço de micropolíticas, espaço de produção de singularidades, como produção de desejo.
E é nesse ponto que as análises discursivas incidirão, no interstício do discurso de um sujeito, ou melhor as diferentes ‘posições discursivas’ que um determinado autor atualiza em seu blog fazendo uso da linguagem como um instrumento de expressão pessoal/política fazendo alusão a um evento recente do quadro político brasileiro.
O Blog, assim como o navio, é uma dobra do Fora (rede), é o Dentro do Fora. O navio é o Dentro (Fora) do mar, assim como o Blog é uma dobra do Fora da rede (cibercaos) onde o sujeito se Dobra e re-dobra. O Dês-dobrar, estaria mais associado a uma distenção do Fora. Um lançar-se no campo Aberto das forças selvagens que regem o Caos. Pensar é criar um campo de imanência com o Fora, deixar passar, atravessar, mas como um mínimo de organização para que no despertar da nova aurora, possamos continuar nossa batalha. Uma desterritorialização total, implicaria na Loucura, em sua forma de passividade com relação às Forças. (Deleuze, 2005; Pélbart, 1989).
No entanto, a arte seria uma forma de lançar-se nesse ‘selvagem das forças’ para produzir a diferença. O Fora é a diferença. O Fora é o mais longe e ao mesmo tempo o mais perto. O impensado dentro do pensamento.
Segundo Deleuze, a subjetividade se faz por dobras, mais diretamente, por 4 ‘grandes dobras’, sendo elas: 1. a parte matéria de nós mesmos (o Corpo); 2. a relação de forças (o Poder); 3. A dobra da verdade (o Saber); 4. o lado de Fora (Caos – zona de potências/intensidades/ forças nômades). (Deleuze, 2005). Assim, a subjetividade seria uma modalidade de inflexão das forças do Fora, onde cria-se um interior. (Pélbart, 1998). A arte seria uma forma de pirar ser enlouquecer.
Blogar é lançar garrafas ao mar contendo mensagens para um estrangeiro. Blogar é no mínimo uma nova forma de experiência, um meio de subjetivar-se, uma nova possibilidade de Dobra, um campo de possibilidade de pensamento, de produção de subjetividade, e em menor escala, de produção de singularidades, forças revolucionárias, revoluções moleculares.
Ps. Avante Piratas!
Referências
DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Ed.34, 2008.
___________. Foucault. Lisboa: Edições 70, 2005.
FOUCAULT, M. Ética, sexualidade, política: Ditos e escritos Vol.5. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
LÉVY, P. Cibercultura. São Paulo: Ed.34, 2007.
_______. O que é o virtual? São Paulo: Ed. 34, 2005.
ORLANDI, E. Análise de Discurso. Campinas, SP.: Pontes, 1999.
PAL-PÉLBART, P. Da clausura do fora ao fora da clausura. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1989.
PÉCHEUX, M. Semântica e discurso. Campinas: Ed. Unicamp, 1997.
SCHITTINE, D. Blog: comunicação e escrita íntima na internet. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
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