domingo, 31 de maio de 2009

A Perspectiva do discurso jornalístico na AD

  • Contextualização:
Considerando que AD pode ser utilizada para avaliar toda espécie de discurso, no jornalismo ela é capaz de revelar sentidos aparentemente ausentes dos textos, aprofundar concepções políticas e trazer à tona os interesses que movem a construção de certos sentidos e o ocultamento de outros. Sendo o jornalismo sempre uma narrativa, a AD pode se consolidar como um caminho a ser percorrido na busca do entendimento das mais variadas questões deste campo.

O texto jornalístico, verbal ou não, possui uma materialidade discursiva, manifesta nos sentidos que faz circular. Analisar estes sentidos, por meio daquilo que é mais superficial ou “material”, significa reconhecer as marcas que regem a construção do texto e guiam a interpretação, identificando as formações discursivas. Significa ainda mapear as diversas vozes presentes no discurso mas, também, as vozes que nele não têm lugar.

  • Jornalismo informativo
Gênero supostamente “não contaminado” pela opinião e pela ideologia, define a si mesmo como imparcial e isento. Faz parte de seu jogo discursivo fazer crer que ele se interpõe entre os fatos e o leitor de forma a retratar fielmente a realidade. Não poderia ser diferente, já que o que está em jogo é sua credibilidade, aquilo que lhe confere valor. Ou, como diria Foucault, na posição em que está, o jornalismo não poderia dizer outra coisa de si mesmo.

  • “Contrato de leitura”
Neste sentido podemos falar da existência de um “contrato de leitura”, que se dá a partir da credibilidade que o jornalismo e os veículos de comunicação adquirem ao longo da historia e principalmente de sua necessidade de manter esta credibilidade.

“Lemos as notícias acreditando que elas são um índice do real; acreditando que os profissionais do campo jornalístico não irão transgredir a fronteira que separa o real da ficção. E é a existência de um ‘acordo de cavalheiros’ entre jornalistas e leitores pelo respeito dessa fronteira que torna possível a leitura das notícias enquanto índice do real e, igualmente, condena qualquer transgressão como ‘crime’”. Nelson Traquina (1993).

  • Jornalismo como “espelho do real”: uma ilusão necessária
Embora a visão do jornalismo como um “espelho” do real não encontre sustentação teórica, fazer com que o leitor creia nesta ilusão continua sendo vital para o jornalismo pois, ele não pode construir outra imagem a respeito de si mesmo que não aquela de ser uma instituição capaz de um relato fiel dos fatos e dos pensamentos. Afinal, é por meio do jornalismo que o leitor espera ler o mundo.

A relação dos jornalistas com seus leitores pode ser às vezes, paradoxal ou hipócrita, dependendo do termo que se prefira usar, uma vez que o jornalismo é uma narração do real mediada por sujeitos (no exercício de suas subjetividades) desta forma as escolhas se dão desde a pauta até a edição, passando pela apuração, seleção das fontes e hierarquização das informações. E curiosamente, mesmo tendo consciência desse processo, o leitor ainda busca no jornalismo uma porta para o real, confirmando que o contrato de leitura realmente funciona.

  • A linguagem determinada pelas formações imaginárias
De modo bastante particular, o jornalismo, trabalha com uma imagem a respeito do interlocutor que determina não apenas questões relativas às escolhas temáticas, mas também questões que dizem respeito ao uso da linguagem e à prática discursiva. O jornalista fala tendo como horizonte um leitor de sua fala. Pesquisas de opinião, por exemplo são uma forma de se conhecer melhor leitor quanto às suas condições socioeconômicas e culturais, dentre outras. Portanto, são as formações imaginárias que possibilitam adequações e diferentes usos da linguagem e estilos nos veículos de comunicação. O jornalista tem sempre em mente, mesmo que de modo internalizado ou intuitivo, o seu “público leitor”. Pensa saber o que este leitor quer saber e até onde vai o seu interesse. Fala e escreve para um leitor virtual.


  • A relação jornalista e leitor

É interessante, porém, observar que o leitor “real” também tem que se relacionar com esse leitor virtual inscrito no texto. O leitor estabelece com os jornalistas uma relação de confiança ou desconfiança, admiração ou desprezo. Pode ser, como diz Orlandi, um cúmplice ou um adversário. E isto será exemplificado de modo claro no nosso corpus de análise. Além disso, também estabelece com aquele leitor imaginado, residente no texto, uma relação de identificação ou não. Outro exemplo é se o texto é muito hermético ou excessivamente especializado, onde o leitor pode desistir dele por não se identificar com “aquele leitor para quem aquele texto foi produzido”.

Se pensarmos que a mídia não está fora do mundo que pretende retratar veremos que ela é imperfeita, complexa e inacabada como ele, e em seu interior se movem sujeitos plenos de pensamentos, idéias e interesses a defender. Mesmo quando estes interesses parecem ser nobres ou ter validade universal, mesmo nesses casos jornalistas são sujeitos que lutam para conciliar seus critérios éticos e jornalísticos (o seu “news judgement”) com as informações que julgam relevantes e organizadas do ponto de vista que consideram mais adequado. Por que alguns se angustiam tanto com a expressão “subjetividade”? Talvez porque, ao defenderem a precisão, a exatidão, a clareza (que abomina a ambigüidade) e o equilíbrio como critérios pragmáticos para evitar o erro, a inverdade, a fraude e a manipulação, tenham na verdade idealizado uma “objetividade” (cuja coexistência com a subjetividade é vista como impossível). Fazer objetividade e subjetividade conviverem em um mesmo espaço exige um pensamento de maior complexidade, não excludente, que aceite o movimento das contradições. A Análise do Discurso, de certo modo, joga luz sobre esse falso dilema.

  • Estratégias discursivas
Finalizando as considerações pode-se afirmar que não há jornalismo sem aquilo que costumamos compreender como sendo “exterior”: os fatos, as relações de poder, os contextos sociais, as decisões políticas, os interesses econômicos, as crenças religiosas, as concepções estéticas. Tudo isso, que por uma questão de recorte temos por hábito deixar “fora” do discurso, na verdade o constitui. O discurso é o resultado de tudo que lhe parece externo. Em um movimento complexo, o jornalismo mostra e esconde o que convém a seus enunciadores por meio de estratégias discursivas.

  • Ciberespaço: o discurso dos “excluídos”
Direcionando a abordagem para nosso corpus de análise nota-se que à semelhança do que ocorre em outros suportes de comunicação, as idéias não hegemônicas muito dificilmente ganham espaço no jornalismo on line. Aqueles que têm acesso garantido aos espaços discursivos da mídia tradicional (jornais, revistas, rádio e televisão) são os mesmos que têm acesso à mídia digital. Da mesma forma, os que tradicionalmente são excluídos, continuarão de fora. Assim, no ciberespaço, "as idéias do lado B", ou seja, o discurso dos “excluídos” só aparece em sites e homepages de iniciativa pessoal, como por exemplo, os blogs e geralmente só é conhecido quando o sujeito-internauta está realizando buscas de caráter não puramente informacional mas também de natureza interpretativa, buscando novos e diferentes pontos de vista sobre algum assunto.

Deste modo a AD pode mostrar o que no jornalismo habitualmente permanece oculto: quem fala e a partir de qual posição ideológica.

Daiane Cristina Guerra

Referências bibliográficas:
• Cristina Teixeira Vieira de Melo. A análise do discurso em contraponto à noção de acessibilidade ilimitada da internet. Disponível em: http://www.ufpe.br/nehte/artigos.
• Marcia Benetti Machado; Nilda Jacks. O discurso jornalístico. Texto apresentado em encontro do GT Estudos de Jornalismo da COMPÓS. Disponível em: http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/artigos/1515.html.

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